Missão cumprida

Missão cumprida

Demorou para eu me dar conta de que meu pai estava com 89 anos de idade e de que a hora dele partir poderia estar próxima. Talvez seja pelo fato de ainda fazermos muitos planos. No início desse ano, ele me contou que estava escrevendo um livro sobre suas memórias. Fiquei animada e prometi que também começaria a escrever o meu – só que de ficção – e que poderíamos publicar juntos. “Em Ponta Porã primeiro”, dizia ele.
Meu pai também planejava – à revelia da minha mãe, é claro – mudar, no futuro, para os Estados Unidos, onde moro com minha família. Alguém poderia imaginar que ele finalmente estivesse planejando se aposentar. Longe disso. Sua ideia era montar um jornal para a comunidade brasileira na Flórida. E, é óbvio, segundo ele, continuaria tocando o Jornal de Notícias de longe.
Esse era o meu pai. Um homem de muita fé, que acreditava que sonhos poderiam virar realidade. Aprendi cedo com ele, que não há nada, absolutamente nada, impossível para os que confiam em Deus.
Eu levei esse ensinamento ao pé da letra. Minha última ousadia foi justamente mudar para os Estados Unidos sem nenhuma condições há quatro anos. Ganhei o green card e embarquei numa aventura que beirava a irresponsabilidade. Mas acreditava que essa era a vontade de Deus e que havia um propósito nessa mudança. Meu pai ficou triste por conta da distância e me questionou sobre a decisão. Minha resposta foi que a culpa era dele. Afinal, ele mesmo havia me ensinado a ir atrás do que acreditava. Ele concordou no ato e me incentivou.
A vida inteira foi assim. Quando eu tinha 16 anos, meu pai me chamou e me perguntou se não era melhor eu dar continuidade nos meus estudos em Campinas, SP, onde ele tinha estudado na juventude. Nunca tinha pensado nisso. Mas como era o meu pai me falando que seria bom, lá fui eu, na época, tímida, iniciar um novo capítulo da minha jornada. Algo que mudou pra sempre minha trajetória.
Antes disso, nos meus 15 anos, ele já tinha me incentivado a participar do Interact – grupo de jovens patrocinado pelo Rotary Club Fronteira, que ele também havia fundado. Comecei num canto da sala, sem falar nada, e finalizei sendo eleita Presidente do Interact e Governadora de todo o Distrito 447. Expliquei pro meu pai que muitos clubes estavam fechando, outros desanimados e que eu precisava ajudar. E, lá foi meu pai comigo, em uma viagem, visitando todos os clubes, desde Mato Grosso do Sul até interior de São Paulo. Só eu, ele e o motorista. Ele largou o trabalho para me acompanhar. No caminho, ele ia me ensinando, dando dicas e contando histórias.
Aliás, lembro de ouvir suas histórias desde muito pequena. Histórias do meu avô Fabriciano, que era xerife, histórias de quando meu pai acordava de madrugada para tocar o gado com meu avô aos 9 anos de idade, histórias de quando ele trabalhava duro para custear sua educação e moradia no internato adventista, de quando ele estudava jornalismo em São Paulo e só tinha um sapato para ir para a faculdade Casper Líbero e para o trabalho. Ele tinha que colocar papelão para tapar o buraco desse único sapato quando chovia. História dele e da minha mãe e de como ele era apaixonado por ela. De como ele era mulherengo antes de conhecê-la e de como ela se tornou a única mulher de sua vida. Histórias de como ele foi convidado para fazer parte da comitiva que recepcionou o ex-presidente americano Jimmy Carter, no Brasil. Histórias de como ele estava prestes a trabalhar no SBT, mas preferiu largar tudo pra retornar a Mato Grosso do Sul para ficar perto da família e honrar sua terra natal.
Meu pai era um homem sábio e visionário. Foi assim, que ele incentivou sua única filha a estudar também nos Estados Unidos, aos 17 anos, como intercambiária do Rotary Fronteira. Quando eu voltei de lá, foi ele também quem me levou pra São Paulo para prestar vestibular na faculdade. De lá, nunca mais voltei para casa, mas nossa ligação continuou próxima até o fim.
Em junho desse ano, vim visitar os meus pais e passamos duas semanas juntos. Contei pra ele sobre uma história que estava criando para o meu livro. Ele ouviu, fez perguntas, deu sugestões. Foi um tempo muito especial. Fiz o bolo de cenoura com cobertura de chocolate que ele tanto gostava. Minha mãe fez pão caseiro e bolinho frito, que ele reclamava que ela só fazia quando eu estava aqui. E a alegria dele era falar com o neto Benjamin e com o meu marido Junior por vídeo chamada. Voltei para os Estados Unidos feliz. E antes de partir, reafirmei um combinado que a gente tinha.
Prometi que eu seria como José do Egito, da Bíblia (história descrita em Gênesis – cap. 37 a 50). Eu iria na frente pra abrir caminho e logo o buscaria pra viver comigo. Cuidaria dele e da minha mãe até eles ficarem bem velhinhos. “Ficar velhinho”, na nossa cabeça, só começaria a acontecer depois dos 100 anos (tínhamos também um acordo de que ele não morreria antes do meu avô, que faleceu com 104).
Quando meu pai foi internado, lembrava dos nossos combinados e ficava tranquila. Orava pela cura e tinha certeza de que Deus atenderia minha oração.
Ele me mandava recado: “Fala pra Vívian que eu estou bem”. Também dizia “Quero ir pra casa”. Ele estava feliz, aguardando minha visita, a do genro e do netinho amado no Natal, quando ele completaria 90 anos.
Mas não foi esse o plano de Deus. E, apesar de toda a dor, tristeza e saudade, esse mesmo Deus tem consolado o meu coração. Meu pai me criou para cumprir os propósitos do nosso Pai e, por mais difícil que seja aceitar Sua vontade, sei que os planos Dele são perfeitos.
Às vezes, fico pensando se Deus não o levou porque simplesmente queria sua compahia, como aconteceu com Enoque, personagem bíblico que amava tanto a Deus, que Ele o levou.
No velório, ouvi inúmeras histórias de como meu pai impactou a vida das pessoas com oportunidades, conselhos e bondade. Ele amava o ser humano e sempre achou que todo mundo merecia uma segunda chance.
Meu pai realmente cumpriu sua missão nessa terra.
Nessa semana, precisei tomar uma decisão e me perguntei o que o meu pai me diria. Chorei. Mas lembrei que ainda tenho o meu Pai celeste, que vai continuar me guiando como sempre guiou meu paizinho.
Quando eu era criança, passava pelo quarto dele e de minha mãe e o via ajoelhado. Ele se ajoelhou aos pés de Deus até alguns anos atrás. E quando já não podia mais, ficava horas contemplando a beleza da criação. Ele acordava de madrugada e ficava em oração, meditando e lendo sua Bíblia de letras grandes que eu havia lhe dado.
Meu pai querido se foi para casa, como ele queria. Não para nossa casa terrena, como eu queria. Ele descansou nos braços de Deus e irá morar num lugar onde não haverá mais dor, doença, tristeza, nem lágrimas. No final das contas, ele foi curado e está bem.
E eu vou continuar repetindo, todas as noites, antes de dormir, um de seus versículos prediletos, que ele também repetia na mesma hora: “Em paz eu me deito e logo pego no sono, porque só tu, Senhor, me faz repousar seguro”. Salmos 8:4

Com amor,
Sua filha Vivian “logotanso” (“criança inteligente”, um dos muitos apelidos carinhosos que o meu pai me deu)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *